por Cláudia Boechat
Ela chegou à Europa bem antes da Copa do Mundo começar e continua por lá depois dela. Em dois meses, faz 26 shows e quem pensa que nos outros dias ela descansa, está redondamente enganado. É o tempo de arrumar as malas e embarcar rumo a outra cidade. Em Barcelona ficou dez dias, mas nada de descanso: deu 64 entrevistas. Entre um show e outro e uma escapadela fashion — conferiu, ao lado de outra diva, Cher (60), o desfile da Maison Chanel, comandada por Karl Lagerfeld (67), na Semana de Moda de Paris —chegou à Embaixada de CARAS na Alemanha e, aí sim, a estrela Ivete Sangalo (32) pode relaxar um pouco. Sobre essa incrível vitalidade, a cantora baiana diz que tem energia suficiente para toda essa maratona e para muito mais: “Eu me divirto. Estou com pessoas que gosto. Além disso, tenho uma vida extremamente regrada e não sou de cometer excessos. Sempre que me desgasto num dia, tento me recuperar no outro”, explica a bela.
A saudade bate. De casa, do país e do namorado, o músico Fábio Duarte (26), que não pôde acompanhar a cantora em toda a turnê porque tem compromissos no Brasil com sua banda de rock, a Meteoro. Ivete namorou Fábio por três meses e se separaram. Voltaram e estão juntos há um ano e dois meses. Ela não fala em casamento e sim em “namoro para sempre, que é mais gostoso”. Está feliz com ele: “Fábio é divertido, boa-praça, companheiro, calmo e me paparica horrores. É ótimo. Gosto de ser cuidada. Em todos os sentidos”. Ivete não nega a vontade de ter filhos e diz que não vai demorar. “Não quero dizer pra mim mesma nem a hora nem nem o lugar porque Deus é quem sabe. Acho que um filho deve ser concebido com muito amor e muitaresponsabilidade”, diz ela, que adora crianas e se dedica muito aos sobrinhos Laís (16), Camila (15), Maria (4), Bento (3), Marcos Antônio (5) e Luca (5), também afilhado. “Eu digo que eles são os controles remotos da minha vida”, acrescenta, explicando que é muito ligada a todos. “Cansei de chorar em aeroporto com saudades deles”, revela.
A estrela baiana conta que não é muito vaidosa. Sua preocupação maior é com a saúde. E, em meio a tantas viagens, acaba usando as mesmas roupas e deixando muitas esquecidas no fundo da mala. Não tem paciência para arrumar e desarrumar bagagem. Brinca que o melhor truque para se viajar bem é “ter um ‘mucamo’, um cabra pra carregar as coisas para você”. Ela é muito bem-humorada. Conseguiu definir uma regra para fazer as malas; admite, porém, que não a segue nunca. “É assim: se você é uma pessoa consumista, leve duas calças jeans e duas camisas, e compre o resto. Se você é lascado, faça a mesma coisa e lave a roupa no banheiro do hotel. O cara que é lascado vai ficar tirando onda pra quê? É melhor aproveitar a viagem do que ficar tentando escolher uma roupa que não tem, pra tirar uma onda que não tem”, avalia.
Contudo, como é uma pessoa pública, Ivete não pode descuidar da aparência. “Eu penso: putz, sou uma cantora, as pessoas esperam que eu esteja sempre incrível, linda, arrumada... Só que às vezes esqueço até de comprar roupa! Em casa, visto o mesmo vestido até que alguém reclama. Sempre lavadinho, óbvio. Odeio mau cheiro. Sempre digo: ‘Se você entrar na casa de alguém e estiver fedendo, tenha medo dessa pessoa’. Tenho um cuidado especial com a minha higiene. Uma pessoa cheirosinha é show”, comenta. Sobre maquiagem, ensina: “Para uma mulher estar bonita, precisa de um corretivo para os olhos, rímel e hidratante para a boca. Não uso nem batom. Geralmente, estou bem morena, mas no inverno, quando fico meio branquinha, uso blushizinho cremoso.”
Acredite se quiser, mas ela não sabe quanto silicone colocou nos seios. Conta que foi uma amiga, Rosana Picon (29), quem mais a influenciou para aumentar os seios e que decidiu de uma hora para outra. Chamou o médico em casa e queria fazer a cirurgia no dia seguinte. Não pôde, claro. Precisou fazer exames. Gostou do resultado. “Ficou supernatural, não ficou ‘bolotê’, como a gente chama. Não sei quanto silicone ele botou, mas foi o suficiente para eu poder usar uma blusinha tomara-que-caia... Eu tinha dito que queria ficar igual a Cicarelli. Mas, depois que coloquei o silicone, entendi que não era só o peito, teria de mudar tudo!”, conta, brincando.
Com aquela pinta toda de mulherão e com esse jeito engraçado, poucos percebem o lado doce, suave e sensível de Ivete. O Burgo Schnellenberg, por exemplo, foi para ela inspirador. “Estou me sentindo uma princesa perdida no Castelo de CARAS. É lindo. Sou extremamente saudosista e melancólica. Nunca imagino o presente nesse castelo. Só penso em como foi isso aqui antes, o que falavam, o que vestiam, como comiam, como era o banho, como eram os romances proibidos... Essa fortaleza tem mais de 700 anos, mas se tivesse 200 já estava bom... É muito tempo para se sustentar com essa beleza. Fico imaginando quantas coisas se passaram aqui. Coisas que a gente tenta desvendar pelo conhecimento histórico. Deve ter havido muita doideira, pestes, homens decapitados, mulheres apedrejadas... Por que pensar só no lado bom da vida? A rapadura é doce, mas não é mole, não”, sentencia.
Na Europa, a cantora percebeu que ninguém se preocupa muito com a opinião alheia. E gostou disso. “O cara tem que batalhar a vida dele, amar quem ele quiser amar, ter a responsabilidade que quiser ter, ser um cidadão do mundo. Uma coisa érespeito para com o próximo, mas, primeiramente, é preciso ter respeito para com você mesmo. Infringir uma lei íntima em função de opiniões alheias é uma loucura”, diz.
Estendendo o raciocínio, não consegue compreender mulheres que buscam descobrir a traição do marido sabendo que não irão deixá- los. “Se você gosta do cara e não consegue se desfazer dele, feche a janela dos olhos para a traição. Vá viver sua vida em paz. Para que infernizar a vida do cara se vai viver com ele mesmo sabendo dos problemas? Se estiver pronta para largar o cara, aí sim. Sou realista. Sou assim desde o meu primeiro namorado. Eu digo: ‘Venha cá meu irmão, você gosta de mim? Não? Vá embora. Vou passar dez anos chorando, mas não quero você comigo sem gostar de mim não.’ Sou prática, é preciso ter clareza do que você realmente está sentindo. De que adianta ter um homem do meu lado se tenho convicção de que ele não gosta de mim? Esse luxo não é pra mim. Não sei remoer nada. Acho uma bobagem também você estar com alguém e querer ‘arrepiar’ por aí. De que adianta viver um casamento de 30 anos cheio de traição, de desamores? Só pra falar que tem trinta anos de casado?”, pondera, com a segurança de quem não fala da boca para fora.
Torcedora do Vitória, Ivete já teve até um time de futebol em Salvador e o esporte é outra coisa que a emociona muito. “Fico com o coração na boca! Grito, xingo o juiz”, conta. Mas se o time perde, como aconteceu com a Seleção Brasileira na Alemanha, ela também não vê motivos para crucificar ninguém. Afinal, esses jogadores já nos deram muita alegria. “Ninguém ganha a vida inteira”, atesta.
FOTOS: FERNANDO LEMOS