por Cláudia Boechat
Vinte anos após ter percorrido o Caminho de Santiago, que lhe inspirou o primeiro livro e iniciou a trajetória que o tornaria mundialmente famoso, o escritor Paulo Coelho (58) resolveu sair em nova peregrinação — desta vez passando por vários países — e estabeleceu que ficaria 90 dias longe de casa. No 91º estava na Embaixada de CARAS, em Attendorn, na Alemanha. Chegou com a mulher, a artista plástica Christina Oiticica (54), num dia ensolarado que tornou ainda mais bela a fortaleza medieval de 1222. O mago presta atenção aos mínimos detalhes, observa onde já deve ter existido um fosso e uma ponte elevadiça; repara nos quadros com temas bíblicos e descobre até símbolos alquimistas na antiga capela consagrada a São Jorge.
Desses 90 dias na estrada, tem muitas histórias para contar. Percorreu de trem 9 228 quilômetros da Transiberiana. Fez as malas 46 vezes e desfez outras 46. Ainda não sabe quais serão os frutos dessa peregrinação, como aconteceu há 20 anos: “Quando terminei o Caminho de Santiago não sabia que aquilo ia gerar o livro Diário de um Mago, que por sua vez ia gerar outro, que ia me recolocar no meu caminho. Então, ainda é cedo. O processo de digestão é lento. Para ser sólido, tem que ser lento”, explica.
O casamento com Christina vai bem. Passam seis meses juntos e seis distantes. Não continuamente. Os dois trabalham em casa e ambos viajam pelo mundo cumprindo compromissos profissionais. Dizem não ter ciúme um do outro: “Se eu fosse ciumenta, ia morrer com tanta fã em cima dele”, brinca Chris. “Ciúme é a morte do amor porque é querer possuir uma força selvagem. Ela está comigo porque me ama, eu estou com ela porque a amo”, sentencia Paulo.
– Esses 90 dias de sua mais recente viagem também podem ser chamados de uma peregrinação?
– Sem dúvida. Uma peregrinação é qualquer movimento físico, do momento em que você sai de casa ao momento em que volta. Pode ser até quando vai para o trabalho e volta, desde que esteja aberto ao espírito da peregrinação, que é descobrir novas coisas, entrar em contato com gente. As pessoas todo dia têm a possibilidade de peregrinar, não o fazem porque estão fechadas no seus mundos, não se abrem para os outros, graças ao conselho que recebem das mães: ‘Não fale com estranhos’. Pronto, aí já estragou tudo.
– Pelo que se lê nos seus livros, suas viagens são basicamente isto: encontrar pessoas, ouvir histórias e contar histórias.
– Totalmente. Antes de começar essa viagem, fui procurar saber o máximo sobre os lugares na internet. Depois, deletei tudo do meu computador porque pensei: assim não tem graça. É melhor ir e ouvir das pessoas aonde tenho que ir, o que devo ver e com quem devo me encontrar. Foi isso o que fiz, seguindo os sinais. Não tinha nenhum roteiro. Apenas alguns compromissos que me obrigavam a não voltar para casa.
– Desses lugares todos por onde passou, qual o mais especial?
– Sibéria. É um lugar completamente longe de tudo. Passamos por sete fusos horários. O momento mais marcante foi quando cheguei ao maior lago de água doce do mundo, o Baikal. A temperatura da água era de três graus e o ambiente deveria estar a uns 15 graus. Mas não podia chegar lá e não entrar na água. Não dá para viver meias experiências. Fiquei nu e mergulhei naqueles três graus. Saí me sentindo tão bem... É uma coisa maravilhosa. Havia uma energia feminina muito grande, a energia da água. Existem coisas que são assim: ou você faz no impulso ou não faz nunca.
– Com tantas viagens, você é bom na arrumação das malas?
– Tenho que ser. Carrego o mínimo. Levo uma mala de mão com o básico: três camisetas, duas camisas, cuecas, oito ou nove meias, outra calça. Tudo preto porque suja menos. Chinelo, computador. No inverno, levo um casaco, na mão. Alguns remédios, vitamina C. Levo também o meu ‘kit oração’: uma bolsinha com um porta- cartões com santos, uma foto de Nhá Chica de Baependi e uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida. Ah, e a garrafa de água de Lourdes. E um despertador. Rezo sempre às seis horas.
– A que você atribui o sucesso de seus livros em culturas tão distintas? Em todo mundo as pessoas têm as mesmas perguntas, as mesmas angústias?
– Sim, mas isso só não basta para explicar o sucesso, porque outros escritores também tratam das mesmas perguntas. Já quis entender isso, mas desisti porque passaria a querer descobrir uma fórmula do sucesso. Então, abandonei a idéia de tentar entender e passei apenas a viver...
– O que acha da Alemanha?
– Já estive aqui muitas vezes, na primeira ainda havia o muro de Berlim. A antiga Alemanha do leste foi um dos lugares mais opressores que já conheci. Voltei
várias vezes, meu livro aqui bateu recordes, fiquei oito anos e meio na lista dos mais vendidos. A Alemanha é realmente um país maravilhoso.
– Existe alguma música que você gostaria de ter escrito?
– A letra de My Way (de Paul Anka e Frank Sinatra).
– Qual filme você acha que todo mundo deveria ver?
– Dois: Era Uma vez no Oeste e Lawrence da Arábia.
FOTOS: SERGIO ZALIS