por Adriana Pizzotti
Elétrica, bem-humorada e extremamente simpática. No palco e na vida real, a cantora Daniela Mercury (40) age da mesma maneira. A baiana, filha de Oxaguiã — orixá a quem se atribui ser jovial, ativo, guerreiro, alegre e generoso —, há 14 anos na estrada do sucesso, também é falante. E o que poucos sabem: uma poeta. “Pretensa poeta”, diz, com modéstia. O hábito não vem de hoje. Daniela começou a colocar as idéias no papel ainda adolescente, sob a influência de grandes mestres como Clarice Lispector (1920-1977). Muitas das poesias de Daniela foram musicadas, outras continuam guardadas, porém, segundo a autora, podem virar um livro. Nos versos, um misto de sentimentos: amor, alegria e dor. Dor? Isto soa estranho quando se fala de Daniela. “Que nada! Gosto de curtir música de fossa. Uma que adoro é Ninguém me Ama, de Antônio Maria”, revela, soltando uma gargalhada, sem antes fazer uma ressalva: “Eu sou muito alegre, mas também sofro algumas vezes. Isto é viver”.
A intensidade de Daniela é presente em tudo o que faz. Ao cantar, ao escrever, ao dançar e ao se apaixonar. Sobre os assuntos do coração, a morena faz piada e, parafraseando a amiga Preta Gil (31), diz que está “momentaneamente ocupada”. “Gosto de namoros longos. Comecei uma relação há pouco, mas não quero expô-la, não é a hora”, desconversa, com jeito de menina. “Sabe que eu adoro paquerar e adoro conquistar? Ser conquistada é ótimo, mas conquistar é muito melhor”, entrega. A receita da sedução, ela ensina: “É preciso sensibilidade, inteligência, bom humor, leveza... beleza também ajuda”, brinca a cantora, hóspede da Embaixada de CARAS, na Alemanha, na companhiada filha caçula, a bailarina e estudante de jornalismo Giovana Póvoas (19). “A nossa relação é a melhor possível, somos muito amigas”, diz Daniela. A filha aprova: “Sempre houve harmonia entre nós. Apesar de ela não estar muito presente por conta do trabalho intenso, é uma mãe muito especial”. Giovana, ou Nana, como é carinhosamente chamada, só faz um porém quando fala da Daniela chefe. “No palco, ela exige mais de mim, isto é nítido, mas eu não ligo. Nos shows, eu sou a bailarina Giovana”, conta.
Na terra dos anfitriões da Copa e em toda a Europa, Daniela e sua banda são extremamente queridos tanto que a turnê no Velho Continente começou em maio e prossegue até agosto. E engana-se quem pensa que o patriotismo da baiana só aflora em tempos de Mundial. “Há 11 anos faço shows internacionais e levo a nossa cultura aos outros povos. Percebo que o brasileiro varia entre uma auto-estima elevada e, ao mesmo tempo, muito baixa pela situação em que o país se encontra. Gostaria que houvesse manifestações tão entusiasmadas quanto as da Copa por uma educação de qualidade; uma grande torcida verde-e-amarela contra a corrupção e a fome”, filosofa ela, desta vez, falando bem sério.
– Você transmite muita energia. Como faz para recarregá-la?
– A escrita é uma forma de me acalmar. Para escrever, fico sozinha, quieta, isto me alimenta. A paixão pela literatura foi a grande herança deixada pelos meus pais.
– Foi através da literatura que veio o gosto pela música?
– Acho que sim. Na minha casa, nós ouvíamos muito Tom Jobim, Chico Buarque, Elis, Gil e nos reuníamos para sessões musicais e de poesia. A minha avó materna, Olga, pedia que eu recitasse as minhas poesias.
– Você era bailarina. Como o canto tomou o espaço da dança?
– Meu corpo era o meu instrumento e eu queria conhecer o mundo através da dança. Arranjei um pretexto para continuar dançando (risos). Hoje em dia a dança e a música têm o mesmo peso.
– Como é a relação com seus filhos, o Gabriel e a Giovana?
– A melhor possível. Eu nunca fui aquela mãe controladora, impus limite, é claro, porque limite é amor. Também sou muita ciumenta com eles. O Gabriel se casou e saiu de casa há três meses. Foi um sofrimento e confesso que ainda estou em fase de adaptação(risos). Ele me chamava para jantar na casa dele e eu, boba, não conseguia. Mas quero deixar bem claro que gosto muito da minha nora, Taís, eles formam um casalzinho lindo. Eu só queria que eles não saíssem de perto de mim.
– E com a Giovana, age da mesma maneira?
– Igualzinho. Fiz com que ela prometesse que ainda vai ficar ao menos cinco anos morando comigo...
– E eles têm ciúme de você?
– Não se manifestam. E respeitam muito minha individualidade.
– Você foi mãe aos 20 anos. Teve que amadurecer na marra?
– Fui uma adolescente questionadora e responsável. É claro que a maternidade me fez amadurecer mais ainda. Fui muita rígida comigo mesma até os meus filhos completarem 10 anos, depois fui relaxando. Hoje, com eles criados, estou bem mais relaxada. Li uma entrevista da Madonna na qual ela diz que depois dos 40 se tornou uma mulher rígida; eu, pelo contrário, fiquei bem mais solta, mais leve.
– Pensa em mais filhos?
– Adotados. Quando tiver mais tempo para ficar em casa, vou adotar duas crianças negras. É um desejo que tenho há algum tempo.
– Você imaginava este sucesso?
– Pelo contrário, nunca sonhei ser famosa. Eu gostava de dançar e de cantar, como ainda adoro. Eu faço uma comparação entre a música e uma viagem, porque sempre que você passa por um lugar vê uma coisinha diferente e ao cantar uma canção, ela nunca será igual.
– E como é ver milhares de pessoas num show gritando o seu nome e cantando a sua música?
– Eu me sinto como se estivesse ouvindo uma torcida. Sem dúvida, é o meu maior prêmio e fico sempre com aquela sensação de êxtase, realização e plenitude.
Este é o meu maior alimento.
Produção: Claudio Lobato.
FOTOS: SERGIO ZALIS