Revista - Edição 817 - Ano 16 - Número 27 - ETIMOLOGIA
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ETIMOLOGIA

Própria em especial das crianças, candura tem origem no adjetivo cândido, do latim candidus, inocente. Tem também o sentido de branco, como em geral é o manustérgio, do latim manustergium, toalhinha que o padre usa na missa para enxugar as mãos.

por Deonísio da Silva*


Aberração: do latim aberratione, declinação de aberratio, de aberrare, verbo formado de ab, preposição que indica afastamento, e do verbo errare, errar, vagar, perder-se. Mas chegou ao português pelo francês aberration, talvez com influência do inglês aberration. Designa fenômeno que pode ser físico: em certa época do ano, o afastamento da Terra em relação ao Sol. E diversos outros desvios da normalidade, nem sempre no sentido pejorativo, como neste comentário de Fábio Mahseredjian sobre o desempenho do jogador argentino, atualmente no Internacional, de Porto Alegre, Pablo Horácio Guiñazu (30): "É uma aberração da natureza. Não é normal. Eu digo isto a vocês sem medo de achar uma explicação fisiológica razoável, porque os próprios testes de avaliação dele são inferiores aos de alguns atletas que nós temos. E ele apresenta níveis de performance assustadores durante o jogo. Não sei como explicar isto".

Candura: de cândido, do latim candidus, inocente, sem mancha, branco ou acrescido ao étimo "cand", o mesmo de candidato e de candor, veio a constituir-se em símbolo de pureza, de coisas claras. Está presente também em candeia e em candelabro, que, acesos, iluminam a escuridão, tornam claro o que é escuro ou obscuro.

Deserto: do latim desertus, particípio do verbo deserere, abandonar, significando, pois, lugar abandonado, sem vegetação, despovoado, vazio. Está presente nas histórias do professor Júlio César de Mello e Souza (1895-1974), publicadas como se o autor fosse árabe, tivesse nascido em Meca e morrido no deserto lutando por sua tribo e se chamasse Ibn Salim Hank Malba Tahan.

Eleger: do latim eligere, escolher. No sistema político atual, os brasileiros escolhem os ocupantes de dois dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Vereadores e deputados estaduais representam os eleitores nos municípios e nos Estados; deputados federais e senadores, na Câmara e no Senado. No Executivo, são eleitos prefeitos, governadores e o presidente da República. Apenas no Judiciário ninguém é eleito. Seus ocupantes chegam aos cargos por concurso público. O nepotismo (favorecer parentes com dinheiro público) e o peculato (desvio de dinheiro ou coisa pública em proveito particular) são aberrações que infelizmente aparecem nos três poderes. Senado, do latim senatus, e senador, do latim senator, indicavam instituição respeitável justamente por ser ocupada por anciãos honestos e com larga experiência de vida, já livres de atos atrevidos e por vezes irresponsáveis da juventude. Para candidatar-se ao Senado, simbolizando pureza, o candidatus (candidato) vestia toga branca, indicando que era uma pessoa sem mácula.

Manustérgio: do latim manustergium, enxugar as mãos, designando pequena toalha, quase um guardanapo, que o padre usa na missa para enxugar as mãos. Foi um dos bens arrolados no inventário do padre Manuel Rodrigues da Costa (17541844), o último dos inconfidentes a falecer. Voltou do degredo com máquinas de fiar, que utilizou para fazer tecidos de lã e de linho no Brasil. Dom Pedro I condecorou o exilado por sua avó, a rainha dona Maria I (1734-1816), a Louca, com a Ordem do Cruzeiro e a de Cristo, as mais altas do Império.

Patético: do grego pathetikós, pelo latim patheticus, patético, relativo às paixões da alma, que nos fazem sofrer, como se doenças fossem. Tomou o sentido de inadequado, mas vem ganhando também o significado de ridículo. Patética identifica uma das composições mais apreciadas do alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827), ao lado de outras de nomes igualmente inventivos, como Pastoral, Heróica e Appassionata. O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) celebrou assim o grande músico: "Meu caro Luís, que vens fazer nesta hora/ de antimúsica pelo mundo afora?/ Patética, heróica, pastoral ou trágica,/ tua voz é sempre um grito modulado,/ um caminho lunar conduzindo à alegria./ Ao não-rumor tiraste a percepção mais íntima/ do coração da Terra, que era o teu".

Secreto: do latim secretus, secreto, do mesmo étimo de segredo, decreto, degredo, discreto, secretário e outros de domínio conexo, indicando coisas ocultas ou separadas, de nenhuma ou pouca visibilidade. Nos últimos 14 anos, foram baixados cerca de 500 atos secretos no Senado para nomear apaniguados dos senadores, pagar horas extras e aumentar salários. Neles, o nepotismo ganhou novo ingrediente, porque foi incluída a categoria de pré-genro e pré-nora, namorado e namorada nomeados para receber polpudos salários e não fazer nada. O jornalista Augusto Nunes (59) escreveu na Veja on-line: "Na Praça dos Três Poderes o critério do mérito foi substituído pelo peso do prontuário, isso se sabe faz algum tempo".
* Deonísio da Silva (60), escritor, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor e coordenador de Letras da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, e autor de A Língua Nossa de Cada Dia e Goethe e Barrabás (Editora Novo Século), entre outros 31 livros, alguns deles publicados também em outros países. E-mail: deonisio@terra.com.br



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