Revista - Edição 757 - Ano 15 - Número 19 - Amor
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Nossas escolhas afetivas podem sim ser estranhas, até surpreendentes

As escolhas amorosas variam de acordo com a singularidade de cada um. Isso depende do grau de sanidade emocional: há desde situações "normais", ou compreensíveis, até os vínculos mais bizarros. No futuro - pasmem! -, há quem preveja relações com românticos robôs. Os carentes humanos têm, desde sempre, vocação para se ligar em situações nem sempre convencionais.

Paulo Sternick

Costumamos ter gratidão, até saudade, das relações que ocorrem ao longo da vida, quando elas, ainda hoje, são compatíveis com nosso sentimento e razão. Reconhecemos sua legitimidade. Mas quem já não se perguntou, olhando seu passado, sobre como pôde ligar-se em certa pessoa? Quem não se espantou com a sucessão de relações que teve, a ponto de confessar: "Eu já me meti em cada uma". Não é tão raro se ouvir essa frase de quem tem autocrítica sobre o incrível deslizamento amoroso de sua libido, capaz de fazer "baldeações" nas mais bizarras estações. As escolhas amorosas dizem muito sobre nós mesmos e olhar para elas de forma reflexiva ajuda a conhecer nosso lado emocional. Uma coisa é o sucesso profissional, ou o bom senso racional; outra inteiramente diferente é a dimensão afetiva: nem sempre os dois lados são compatíveis e homogêneos.

Os seres humanos, mesmo os autosuficientes, ou inibidos, com problemas de relacionamento, sentem carência afetiva e ligam de certa maneira seus afetos em algo. As escolhas não raro recaem sobre objetos os mais surpreendentes. Os que têm problemas de auto-estima só conseguem se aproximar de pessoas de classe social ou intelectual inferior, pois, com elas, não se sentem ameaçados. Há homens e mulheres que não querem, ou não conseguem, mais se envolver de forma habitual ou tradicional e se ligam em garotos ou garotas de programa. Com eles, ou com elas, acabam mantendo uma "estabilidade" afetiva de tempos em tempos. Os exemplos se multiplicam e nem sempre têm conotação sexual no sentido estrito. Pois as necessidades de vínculo afetivo estão além da sexualidade, buscam companhia, lealdade e solidariedade.

Isso explica por que, nas metrópoles, há pessoas que se ligam tanto em animais de estimação, como cães, gatos ou pássaros, e chegam a considerá-los como filhos ou filhas. Substituem as pessoas, ou as complementam, na necessidade do vínculo afetivo. Essa necessidade de apego pode chegar ao extremo que justifica o sucesso dos "tamagotchi" ou do "aibo", o cão robô da Sony. Já a sexualidade urgente, quando dissociada de outras aspirações, conduz a vínculos pessoais indiscriminados, sem levar em conta outros aspectos do objeto do desejo - seu caráter, personalidade ou subjetividade. Algumas vezes, as escolhas recaem em pessoas legais, mas muito complicadas. Quem não viu o filme Melhor É Impossível, com o confuso personagem interpretado por Jack Nicholson (71)? No extremo, o incrível é que há pessoas tão peculiares que se sentem - acreditem! - quase como ETs, apesar de, na aparência, serem normais. Por isso, hoje em dia, quando há quem se relacione melhor com máquinas e computadores do que com humanos, ganha certo sentido a previsão de David Levy, pesquisador britânico de inteligência artificial, autor do inquietante Amor e Sexo com Robôs: para indivíduos que não conseguem estabelecer conexões emocionais e sexuais com outras pessoas, talvez haja a possibilidade de fazer ligação com robôs românticos, em 2050. Muitos pombinhos por aqui ficaram intrigados. Afinal, ele ou ela não ficam horas conectados sabe-se lá com quem? Já não acontecem conversas virtuais e até - usando câmeras - "transas a distância"? Portanto, para evitar malentendidos, quem prefere se relacionar ao vivo com humanos precisa prestar atenção em seus pares reais e em seus sentimentos.

Paulo Sternick é psicanalista no Rio de Janeiro e em Teresópolis (RJ). E-mail: psternick@rjnet.com.br


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